Quimbanda - Contracultura Brasileira
A macumba - da qual a quimbanda é herdeira legítima, é de origem bantu. O culto tem suas inspirações originais ao sul da linha do Equador. Em Angola, por exemplo, desenvolve-se como adjunto ao culto das energias da natureza, a esfera do culto ancestral, o chamado dos antepassados, o culto aos ancestrais mortos. Esta forma de culto acaba tendo no nosso país uma versão um tanto mais simplificada em elementos, mas talvez mais rica em fundamentos, desenvolvimento e estrutura.
A quimbanda nasce da contracultura brasileira. Aliás, a quimbanda é a contracultura brasileira, assim como o culto a Dionísio ou Baco o era na Grécia e na Roma Antiga. Normalmente, a contracultura, principalmente ligada aos cultos religiosos, é voltada às pessoas mais simples e menos providas de poder e engajamento social, pela sua própria essência defensiva. Neste ritmo, por exemplo, é comum observar que mesmo na mesa dos orixás, nos dias de hoje, a Quimbanda ainda é vista por muitos como um tabu ou como representante de um arquétipo diretamente ligado ao marginal social - e de certa maneira realmente é.
Poderíamos divagar um pouco sobre o que hoje se entende por caminho da mão esquerda e aspectos dessa natureza, que colocam a quimbanda num patamar de "menor nível de iluminação", mas defender o culto dessas acusações deixarei para um próximo texto. O que realmente importa aqui é atestar a verdadeira contracultura e possuir olhares atentos sobre o que isso quer dizer.
Toda criação manifesta-se através de sua linguagem própria; todas as contraculturas têm suas formas de expressão. A contralinguagem é fator fundamental para a contracultura: a provocação sexual, a cachaça, o fumo e até mesmo as grosserias, exaltam aspectos humanos vulgares reprovados pelo pensamento comum da sociedade, mesmo sendo a sua própria sombra. A manifestação desses elementos através da personificação gera a manifestação expressiva da vontade acima da ordem. Caos por natureza, não por escolha.
Evidentemente isso abre um verdadeiro boletim de ocorrência na mente cristã para ligar a imagem do quimbandeiro ao de um sujeito vagabundo, sem seriedade para com a vida ou até mesmo um indivíduo criminoso. Está também evidentemente errado. Contudo é possível sim pensar o quimbandeiro como um rebelde espiritual, alguém não conformado ou incomodado com a realidade à sua volta, seja em que natureza esteja posto seu incômodo, isso é indiferente.
Na balança do catolicismo, a quimbanda representaria o pecado da soberba, uma verdadeira entrega pessoal aos sentimentos egoícos - "O controle do ego na medida do quimbandeiro" será o tema de um outro texto - sentimentos egoícos esses que, nesta mesma ótica, aprisionaria o homem. Mas o aprisiona dentro de si mesmo, onde deve buscar suas chaves para realmente abrir as portas!
Se você já parou para observar um pouco a sociedade certamente percebeu que há uma espécie de "véu de fabianismo", onde se diz ser do bem por conveniência e se age a partir de uma moral particular velada, muitas vezes pior que que algo tido como abertamente imoral. A quimbanda acaba combatendo este aspecto velado, quebrando as amarras da hipocrisia. Contudo, no culto afro existem muitos "protestantismos", se é que posso falar assim; com isso quero dizer aqueles que inventam, mentem, não sabem e até mesmo criam dogmas ou inventam fundamentos. Esses você deve passar longe. Faremos um ataque preciso e direto aos falsos da Internet, mostrando seus modos de agir, suas formas de parecerem intelectuais ou complexos, cheios de idiomas e dialetos, e com certeza, apresentar a quimbanda como ela de fato é!
Faterno abraço aos irmãos e aos leitores,
Bruxodo
2022
Bases para complemento dos leitores:
O Segredo da Macumba (Marco Aurélio Luz e Georges Lapassade)
Manifesto Antropofágico (Oswald de Azevedo)
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